Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
It's never too late to become what you might have been
ás vezes sinto a necessidade de fugir, de me esconder, como isso podesse apagar de mim o que me faz sentir essa necessidade, como se podesse fugir de mim, separar-me em pedaços durante essa corrida e depois, ao voltar, apanhar do chão apenas os que desejasse, como se possivel fosse fazer esse caminho de retorno sem tropeçar em todos os que queria deixar para trás. poderei fingir, fingir para mim próprio, como quem força um sorriso em frente ao espelho. apetece-me gritar, mas agora que som poderia sair. e que ouvidos o poderiam receber, porque para eu proprio ouvir basta sussurar - está tudo bem. como reflexo de um sonho.
Quem pintou estes desenhos, em cores vivas, aqui, neste chão que piso, e como posso eu caminhar sobre eles. Se um dia perdi o azul, foi porque o ceu se fechou para mim, foi porque as ondas deixaram de embater no meu corpo agora inerte, se um dia perdi o verde, foi porque deixei de ter a capacidade de correr pelos campos, deixei fugir a esperança, se um dia perdi o vermelho, foi porque o meu corpo drenou todo o sangue e agora vazio não mais sou que preto e branco.
Os olhos fechados. Tudo fica suspenso ao toque dos sonhos que carregas nas pontas dos dedos. Envolvido assim pela vida, a vida que emana de ti, é tudo tão maior, tudo tão mais perfeito. De repente a pequenez faz o sentido possível ao toque da imensidão que transportas contigo, imagino o peso da imensidão, e tento perceber como é possivel, como podem os teus passos ser tão leves, que parece que levitas, como se essa imensidão e o seu peso te elevassem no céu. Agora de olhos abertos, tento encontrar-te no azul do ceu, e invade-me este sentimento que aperta, que me faz cerrar os olhos e voltar, voltar a sentir, enquanto esta recordação viver.
- Mais um minuto e não o suportaria mais.
è engraçado como pensamos ter a noção do limite, e como de certa forma temos tendência a colocarmo-nos sempre perto de um. provavelmente passariam horas, caminhando sempre na mesma direcção, sem nunca a ele chegarmos, e provavelmente por ele passariamos sem que o percebessemos. existirá um limite? e uma vez ultrapassado, poderemos voltar atŕas?
poderei apanhar do chão este emaranhado de peças partidas e voltar a uni-las?
é possivel que não tenhas contigo tudo aquilo que pensas precisar, provavelmente isso nunca acontecerá. o sol, ou um abrigo de tudo, a multidão, ou um vazio profundo, a vida, ou o descansar eterno. talvez seja apenas uma dúvida, uma incerteza que um dia se diluirá no teu sorriso, tornando-se vestígio de um passado sombrio, hoje presente possível. acharás tudo isto ridículo? tenho vergonha do ridículo. não sei se um dia o precisar se ajustará ao pensar ou se um dia o pensar capitulará aos pés do ter. para mim, para alem de ti, o mundo desvanece, e as cores que nele preciso ver, são projectadas por ti, pela tua bela e singela presença.
Todos estamos a procurar. Mas afinal o que procuramos? Imagino o princípio da necessidade, quando o olhar de dois seres se cruzaram, quando o corpo corroeu de fraqueza a primeira vitima, imagino as primeiras lágrimas provocadas pela primeira dor alguma vez sentida, e imagino a necessidade de fazer algo para seguir em frente, para ir um pouco mais alem. Como se dá sentido a algo que partimos do principio que, por já cá se encontrar, tambem nos pertence? Será encontrar, neste tempo de caprichos, apenas tomar conhecimento da existência de algo?
Goatava de poder mudar algo, mesmo que isso, no fim, não mais que um capricho fosse tambem, só para perceber se ainda temos a capacidade de encontrar, se ainda sentimos a necessidade, se ainda sentimos.
Mas não posso.
E eu nem queria algo melhor, nem algo diferente, nem tão pouco algo novo, queria apenas algo que fosse meu. Mas o rio continua a correr em direcção ao mar. E nós? Para onde corremos nós?
É estranha esta sensação. É como ver partir alguem, ver algo desaparecer diante dos meus olhos, como ver passar o barco que à deriva, ali, no mar, carrega todos as esperanças, toda a vontade, todo o mundo, e eu ali, na praia, olho estasiado para tudo aquilo como se fosse algo imensamente distante. Mas tudo isso está aqui, estes grãos de areia, este sorriso, esta imagem de ti, esta vontade de partir, até mesmo esta certeza de não ser capaz, até este medo de o tentar. É isto e não mais que isto, é tão pouco e ao mesmo é tudo, absolutamente tudo.
Está sempre distante, mas talvez pior seja o facto de estar sempre lá, porque ter a noção do inalcançavel faz-nos parar. Precisamos do movimento, é ele que cria a ilusão da aproximação, a ilusão de estarmos a caminhar para o inalcançavel. Mas por vezes o movimento faz-nos perder a noção que somos nós que nos afastamos, que queremos fugir. No fim percebemos que a unica coisa que se tornou inalcançavel fomos nós próprios, e nesse momento desejamos que nada pare, nesse momento queremos muito acreditar que podemos chegar.
Ele era um pequeno ser, tão pequeno que só os mais atentos davam pela sua presença, sempre que alguem olhava para ele, sempre que um olhar se cruzava com o seu, ele sorria, não porque sentisse a necessidade de ser notado, mas porque aquele olhar, aquela atenção dispensada aproximava-o da vida, como se ao ser visto despertasse a vida no olhar de quem o olhava, porque a vida está nas pequenas coisas, por isso sentia que a vida estava em si, apesar de não ser para si, apesar de ela só poder ser vivida por quem o olhava. Por vezes olhava ele para as pessoas que não o sentiam ali, que olhavam o ceu com uma vontade imensa de o tocar, e pensava que ridiculo era querer tocar o céu quando nem aptos estamos para caminhar com os pés bem assentes na terra, quando nem conseguimos ver o que nos rodeia.
Quero tanto parar e olhar, quero tanto sorrir, quero tanto sentir a vida, quero tanto, tanto, que até estas lágrimas me fazem sentir feliz.
Porque encaminhaste tudo isto até aqui? Seguras na tua mão toda esta imensidão de sentimentos, e eu, quem sou, gostava tanto de te proporcionar, de ter para ti, uma pequena porção daquilo que a mim me dás. Como a vida nos mostra que nada é o que pensamos ser, que nada é porque assumimos que o seja, é apenas, para alem daquilo que podemos controlar, e um dia percebemos que não interessa aquilo que podes ou não podes alcançar, a unica coisa que podemos viver é o que temos nas nossas mãos, seja muito, seja pouco, ou seja, como neste momento sinto, muito mais do que alguma vez poderei segurar nas minhas.
Neste silêncio procuro ouvir, neste mundo sem luz tento ver, há, não sei se para todos ou se só para os meus olhos, uma pequena luz que salta sem parar, que marca o ritmo, o seu ritmo, o meu ritmo, o nosso ritmo, e eu continuo aqui, parado, tentando perceber se com ela devo saltar, e ela pula e pula, sem nunca parar, sem nunca perder a noção, a sua noção, a noção do tempo.
neste campo, pelos nossos passos, são pisadas as folhas que se libertaram do seu berço de vida. a cada passo desfazemos dezenas de sonhos, sob o peso de ser cedem centenas de pensamentos, mesmo assim continuamos a caminhar. agora fecha os olhos, deixa que os suspiros invadam tudo o que és, mas não pares, nunca pares, nunca deixes que esse som te detenha. tudo é porque um dia, quando sentiu a necessidade de ter, partiu. no fim deixou que o que encontrou fosse mais do que aquilo que poderia ser. o vento sopra só durante algum tempo. no chão, esmagados pelos teus passos todos somos iguais, todos somos folhas, todos esperamos o vento, e a degradação com a mesma ansiedade. descansa, o sol aquece-nos a todos, mesmo aqui à espera de um nada que não chega. neste campo somos felizes porque temos a capacidade de chorar, porque temos a capacidade de nos libertarmos de tudo e esperar. esperar pelo teus passos, e do seu peso quando nos pisas
A cada novo acordar são como lâminas. Lâminas estas que cortam a fina pele que se formou sobre uma ferida que acaba de cicatrizar, como se a cada ciclo com um fim no despertar lhe devolvessem tudo o que foi e que precisa do tempo para deixar de ser, para passar a ser apenas uma marca de algo que foi. Uma força que a cada novo dia acorda como todas as outras forças nele contidas, força essa que tem de reprimir a cada passo, ao mesmo tempo que outras forças precisam de ser estimuladas ao mesmo ritmo, ás vezes perde a noção de quais são umas e outras, como por vezes se confudem bem e mal quando para eles olhamos de uma forma mais demorada. Com facilidade segue o caminho certo, com a mesma facilidade que nele se perde.
Existe sempre uma saída - pensava - não como uma porta que atravessamos para ir embora de um edifício, apenas um meio de sair de onde estamos para um sítio diferente levando tudo o que neste temos, o bom e o mau, porque tudo isso é nosso, pelo menos é nossa a parte que dele vivemos, o resto, os pedaços que não são nossos devemos deixa-los, pode sempre haver quem os queira para si. Ali sentado nos degraus que o levam á vida, pensava na incapacidade de correr por eles, não sabe ao certo se se trata de uma incapacidade, se será um medo, ou se será apenas a incerteza a duvida de ser capaz, de qualquer forma pensa que nunca por eles correu, nunca se arriscou a cair, nunca se arriscou a neles se perder, sempre teve a noção do piso onde se encontrava. É dificil perceber porque temos medo de sair, medo de sermos num outro sítio, é sempre dificil chegar com um monte de tralha ás costas e dizer que tudo aquilo somos nós. Ali parado, naquela pausa de tudo, sente ser capaz, sente que não mais que isso pode fazer, não mais que pegar em tudo o que é, porque é assim porque assim o escolheu, e partir. Porque chega sempre o dia em que sentimos uma necessidade imensa de ser para alem daquilo que sempre pensámos ser.