domingo, 15 de junho de 2008

Chorava, sentado no passeio de frente ao jardim. No chão formava-se uma pequena corrente de dúvida e angústia.
No jardim estava uma criança que brincava com um pequeno pedaço de madeira que arrancára de uma árvore. Empunhava-o como se de uma espada se tratasse, com ele combatia os seus inimigos, fantasmas do seu mundo de fantasia. Eles caiam, um por um, levantando uma nuvem de pó ao embaterem no chão, inanimados, a morte espalhava-se pelo chão, pelas mãos de uma criança.
Sentado, ali, pensava que aos olhos daquela criança nada é definitivo, porque a morte daqueles fantasmas era um acontecimento ciclico, amanha voltarão a encontrar-se todos ali para uma nova batalha.
Sentado num dos bancos do jardim está um rapaz, nas mãos segura uma flor, olha o relogio como se esperasse que algo se materializasse do pequeno mecanismo que o faz mover. Aninhado a seus pés encontra-se um dos fantasmas, ferido, estende a mão ao rapaz como se lhe pedisse ajuda.
Naquele jardim de fantasia existem camadas de realidade, como peliculas de vários filmes sobrepostas e expostas á luz do projector, mistura confusa de imagens, que em comum só têm o facto de serem projectadas no mesmo espaço fisico. Ás vezes torna-se dificil de perceber a qual dessas peliculas pertencemos, e parar para tentar perceber é expor a fita demasiado tempo á luz intensa que projecta a nossa sombra no mundo e quando olhamos para ela não mais somos que cinzas.
Um olhar perdido caminha por entre os destroços do campo de batalha, procura alguem no meio de todos aqueles corpos inertes, mas caminha por entre eles como se não existissem. O olhar do rapaz ao desviar-se do relogio cruza-se com aquele olhar perdido que vagueia pelo jardim. Procurar não é sentarmo-nos num banco de jardim á espera que o tempo traga até nossos pés aquilo que queremos.
O olhar perdido chega-se á criança, que desfere o ultimo golpe, sobre o ultimo fantasma ainda vivo, e sussura-lhe ao ouvido -Por hoje já chega.
Ali sentado não percebe quem ganhou, quem perdeu, quem encontrou, ou quem esqueceu. Nada existe até que lhe decidimos tocar. Ali sentado apetece-lhe desaparecer.

sexta-feira, 13 de junho de 2008








talvez seja possivel, talvez

quinta-feira, 12 de junho de 2008

neste mundo perdido, nele sou, sendo não mais que um pouco do nada que temo ser, por esta janela olho o tempo, o tempo que cinge, que prende, que nos sustem, supensos neste mar de não sei quê, embalados por estas marés de acordar e esquecer, a memória de ter sido levado para alem de tudo isto, e o som amargo de ter voltado sem ter percebido onde se esteve, o grito ao ser arrancado daquilo que mais queremos, sem saber porque queremos, apenas porque no fundo temos de querer algo, algo mais do que o que temos


o sentido? o sentido não se procura

"Eu estou sempre a imaginar todos esses miúdos a brincarem numa grande seara. Milhares deles, e ninguém crescido por perto – excepto eu. Estou parado, rente a uma falésia. Tudo o que tenho de fazer, é agarrá-los, caso se aproximem demasiadamente do abismo. Eu seria o apanhador na seara. Eu sei que é loucura, mas é a única coisa que eu gostaria de fazer."

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Por vezes é preciso resistir, mesmo que pensemos não ter força para continuar.

Aqui, Agora, a vida pára e avança soluçando em gestos confusos. Mas sei que, para lá da duvida, para lá daquilo que estanca a vontade, há um vento, uma brisa que levanta do chão todas estas chamas caidas.
Não tentar não é deixar apagar, não tentar é caminhar sobre um chão em chamas.

E este som que sustem tudo o resto, acordar é correr por um manto verde, ao fundo, bem lá no fundo, intocavel, está aquilo que pensamos não ser, que pensamos não ter, que pensamos inalcançavel. Na fragilidade somos tudo, e somos nada, e somos o som, o som que tudo sustem e que grita, quero muito.

O refugio é o ponto de partida para chegar, não o podemos ver como um asilo da moribunda vontade.

Porque parar um pouco, paralisados pelo medo, é ser a vida que somos sem saber que o somos.

Porque no fundo somos tudo sem nada ser...

terça-feira, 10 de junho de 2008

O olhar inquieto, esta necessidade de fixar o chão, como se assim podesse fugir, podesse deixar algo de parte. Não sei o porquê de o querer fazer. Ás vezes assumimos estados como permanentes, aceitamos, e ao conviver com ele durante algum tempo confundimo-nos com ele, quando o deixamos, ou quando o tentamos fazer, já nem percebemos a linha que nos une, já nem temos a noção por onde partir esse elo.
Quando um dia fechamos a mão, e abdicamos de a abrir para quem quer que seja, tornamo-nos frios, tornamo-nos egoistas, ao mesmo tempo perdemos a capacidade de dar, de nos dar-mos, depois algo acontece e ao tentarmos abrir a nossa mão percebemos que perdemos a capacidade de o fazer, e doi ser quem somos, doi um pouco não conseguir, doi um pouco não acreditar, e doi tanto ver isso sair de nós e espalhar-se pelo mundo.

segunda-feira, 9 de junho de 2008









-Can you hear music if you're in Heaven?

-Yes.
-Okay, then. I'll do it.

domingo, 8 de junho de 2008

Sei que um dia vou segurar nas minhas mãos o fim. Sei que um dia o vou aceitar. Sei-o porque sou uma cápsula de vidro de onde foi sugado todo ar. Sei-o porque sou o mais perfeito vácuo.
Os sons, as vozes, são tão exteriores, tão distantes, no vácuo que sou o som não se propaga. As imagens, as pessoas, são como um cenário irreal que desaparece quando fecho os olhos.

Coloco a minha mão sobre o peito, nela sinto o bater do coração, quando a afasto o calor por ela provocado desvanece ate não ser mais que uma recordação perdida, o ar continua a entrar e a sair, inercia da vida. E esta recordação desfocada, de onde vem este ser, onde se deu passagem do não ser para o ser, queria lá voltar, queria perceber o porquê, queria saber se posso agora fechar os olhos, se posso agora descansar, gostava de lá voltar e começar de novo, gostava de deixar tanta coisa lá, mas nem sei onde começou, porque somos mesmo sem querer, somos porque temos de ser, porque sim, sempre este sim de aceitação obrigatoria, como se tivesse de ser

quer queira, quer não queira...

Como se com um simples movimento das pálpebras nos privasses do mundo. Para lá delas a imensidão de tudo provoca arrepios. Gostava de saber o que vê esse tudo do lado de cá, simples fragmentos de vida, pequenas peças perdidas, sonho quebrados e por quebrar levados pelo tempo que só existe do lado de cá. Hoje tentei ver o que para lá dos meus havia, e ao procurar, só os teus encontrei.



sábado, 7 de junho de 2008

sexta-feira, 6 de junho de 2008

De alguma forma a vontade encaminha á inacção, antecedendo a acção e pesando nela, mas deixando-a passar, como a vontade de fazer o que gostariamos que já estivesse feito, não sei sequer se se pode chamar vontade.
Talvez isso seja a vontade de estar onde se está, mas com o que está do lado de lá, atravessar não, tentar puxar para cá, a vontade de querer partir ficando.
Ter vontade de fazer aquilo que já está feito. Talvez seja o ponto de partida para nada fazer, não é sequer querer refazer. Assumir que sim mas deixando espaço ao talvez, o espaço necessario para que ele se arraste até ao infinito, onde se perde, nesta malha de ter vontade de fazer o que já está feito.


quinta-feira, 5 de junho de 2008

Estar é um instante, é um momento perdido na imensidão de ser. Não sei até que ponto poderá o estar interferir no ser. Estar é esquecer. Ser é lembrar.
O tempo só pára quando somos, quando estamos, passa a correr até que deixamos de estar e nos lembramos de ser, novamente. Estar é efemero, é escorregar pela relva humida de um monte, pelo qual descemos rapidamente, até chegarmos ao vale do ser.
No vale do ser as coisas crescem para lá do tempo, para lá da vontade. No vale do ser não existe realidade, não existe jogos, nem lutas. A paz aqui é como uma foto do estar, porque no estar a paz só existe nas imagens fixas da recordação.
E recordar é ser.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

She told me why
She told me lies
Always take care of this

I told her how
I've always stayed
Always waiting

For nothing

When I get out of here
When I leave you behind
I'll find that the years passed us by

And I can, see you
Running through the fields of sorrow
Yes I can, see you
Running through the fields of sorrow

When you get out of here
When you leave me behind
You'll find that the years passed us by

When you get out of here
When you leave me behind
You'll find that those years passed us by

And I can, see you
Running through the fields of sorrow
Yes I can, see you
Running through the fields of sorrow

terça-feira, 3 de junho de 2008

E este sitio, e eu, e tudo isto. São tudo isso, como folhas. Como bocados arrancados, ligados por esta mágoa. E o sol, e tu, e este ser. Será que é. É tudo, mesmo que nunca o consiga ser. Será capaz de ser o que é, já, aqui, neste sitio? És tão mais, e as palavras, e este som quebrado a meio caminho. Onde estás? Quero dizer que sim, quero dizer que , quero dizer, quero. E estas palavras perdidas. E este querer uni-las. E este estar tão mais que, e este querer não querendo mais que, e este estar aqui, neste sitio, neste mundo mudo. Este silêncio. Consegues ouvir?

Um dia, sem saber de onde vem. uma voz suspira-lhe ao ouvido - todas estas chamas não te vão queimar, ser, aqui, é a brisa que redopia e que lança todas estas cinzas no ar, nelas encontrarás tudo.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Como se para tocar o céu tivessemos apenas de crescer na sua direcção.


Talvez até nem seja possivel. Quando chegámos já cá estavam todos os outros, será possivel caminhar numa outra direcção? Que significa exactamente ficar á margem? Não tem de ser preciso correr, podemos apenas parar um pouco agora, podemos descansar um pouco. Não tens de fechar os olhos para veres um outro mundo, deixa antes o mundo ver um outro mundo em ti. Não tens de procurar o teu lugar no mundo, deixa apenas ele procurar o seu em ti, deixa aquilo que és aceitar a sua imperfeição. Quando o preconceito para ti olhar, sorri, és sempre tão mais, tão maior. Chegámos agora mesmo, e eu estou tão feliz, gostava tanto de abraçar a incompreenção e dizer-lhe ao ouvido – Obrigado, contigo aqui sou tão maior.

O que somos reside para lá dos adjectivos, num mundo sem conceitos, onde lutar é criar os teus.

domingo, 1 de junho de 2008

Quando por instantes o sonho e a realidade se tocam o mundo foge debaixo dos nossos pés, resumindo tudo áquela impossibilidade perfeita de tocar o céu.